Os autocarros são algo interessante sabem?
Quando entramos em autocarros, mil olhos se prontificam a julgar-nos... o nosso corpo está nu, a nossa alma ainda mais despida. Nós não somos apenas julgados, mas julgadores! Digam-me: quando o autocarro está cheio e só há um lugar ao lado de uma velhinha simpática ou rude, de um homem elegante ou nem por isso, de uma rapariga com cara de amigos ou de que possui poucos... a nossa consideração sobre essa pessoa faz-se em menos de um segundo, quase sem pensar.
De que somos nós feitos? Orgãos, veias, sangue, músculos, carne... os sentimentos são deitados fora porque são secundários, só os percebemos depois da fala; só somos dignos deles após exprimir palavras que se tornam vazias com o tempo.
O tempo não tem culpa... de certo que não é ele que nos estrutura. Mentes poluídas, vozes iludidas, pensamentos ofegantes de caras avermelhadas da joventude passada.
Eu não sei.
Os autocarros são algo interessante... quando lá entro, só me quero sentar. O sentar é como um apagar da visão; como se cegassemos quem nos tivesse visto entrar. Já ninguém nos vê. Mas todos nos olham...
Os autocarros são como que um confronto com aquilo de que fugimos.
Não sei quem inventou os autocarros... contudo, pensou em mistérios protegidos em mãos silênciosas. Pensou em olhares encontrados depois de uma briga. Penso que a chuva servisse de um ótimo pretexto para começar uma conversa.
Pensou bem.
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