Será que nos resta
muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a
gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um
motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes
uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça.
Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores.
Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro
gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro,
ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o
outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com
muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos.
Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de
António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um
bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os
outros.
Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)"
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