23.4.15

coluna, para que te quero

Por momentos, a dor agarra-me.
Quem sou eu?
Não consigo ouvir e a pressão das minhas costas faz-me gritar
Porque é que me preencheram
Porque é que colocaram pedaços de não eu em intervalos falecidos

Por momentos, a dor fala-me
Estou de volta àquela sala
Ao ar do meu pai em verde
À cara humida que não sinto
E ao som que se propaga

Vem da boca da senhora que me diz
"Quando não aguentar mais, carregue!"

E apago-me

O sono não vem, mas a consciência não me mantém acordada
Quantas horas passaram?
Quando é que vou poder ver a minha mãe?
Quero ver a minha mãe

Vem o primeiro soluço
E em vez do ar do meu pai, a anestesia sai em verde pela minha boca
Nunca me soube melhor deitar merda fora

De manhã, sem perceber o meu movimento respiratório,
A minha mãe
E toda a água que lhe falta
Tentam alimentar o meu corpo
Mas sinto-me cheia

Sim, por favor, silêncio, não me engulas mais, não metas a mão cá dentro

Segundo soluço

Apagão

Acordo e a dor é subordinante
Quem sou eu?

Não aguento mais este peso