18.3.15

enfim

Tudo é um bocado chato. As folhas caem com o vento mesmo sendo praticamente primavera, as moedas no bolso pesam e incomodam, as pessoas falam e soa a ruído, a tua voz falha no momento exato, o telemóvel desliga-te chamadas porque tens uma cara, a vida é dura e depois morre-se.
Tudo é um bocado chato. Estás a ser enforcado aos poucos, quanto mais tentas sentir o chão, mais a corda aperta. Sabe-te bem um cigarro e a consciência diz: alimentas a carvão o que precisa de bateria. Ouves os sons claros e o vazio engole-te.
Tudo é um bocado chato. Às vezes. Sentes que as virgulas passeiam e não compreendes mais a que vazios pertencem. Somos vírgulas: somos utilizados apenas pelo facto de não escreverem com pontos finais, porque precisam de frases, orações complexas com conectores desconhecidos. Decoras nomes que te irão perguntar porque sem eles és incapaz.
Do quê? Do quê, se os sorrisos são formados por dentes e a horas passam e os queremos preencher com sentimentos. Definições do que é cada sentimento, lá está, porque sentir não é mais animal, mas racional. 
Tudo é um bocado chato. Às vezes. Quando me dás a mão e a sinto fria, depois vais-te e não me refresco mais.
Às vezes. O suor que me corre pelo corpo enquanto te chegas mais perto, faz-me crer: somos dois átomos instáveis, preciso da tua ligação para que a energia potencial do meu sistema seja a menor possível. 
Tudo é um bocado chato, menos sentir e pensar que se adora sentir, nas pontas dos dedos dos pés, nos fios de cabelo espigado, no interior do meu nariz.
Tudo, dêem-me tudo.